CAPRI, A ILHA DAS CIGARRAS
Capri é uma ilha bizarra. A sua beleza serena, dócil e suscetível de despertar sentimentos contraditórios, parece assumir a condição de presente envenenado. Tal como sucede com certos seres a quem a Natureza concedeu determinados dons e que não podem a fugir a um destino que o tempo se encarregará de modelar astuciosamente, também Capri floresceu às mãos de um desígnio nascido desde tempos primitivos.
Capri é bela; dir-se-á que padece de uma beleza que convida a uma postura meramente contemplativa; e, todavia, ninguém arriscará a sentença de que estamos perante uma beleza inútil ou estéril. Mais: apesar das reviravoltas da História, Capri continua bela e constante, dois adjectivos que se dão, aparentemente, como o azeite e água.
A fortuna, como escrevia Simónides, poeta grego do séc. V a.C., pode mudar “rápida como o volver de asas de uma mosca”; mas não para Capri, uma ilha que pelo menos desde os idos remotos do Império Romano continua a ser destino de milhares e milhares de viajantes, cada um deles atraído pelos mais diversos motivos, mas todos, provavelmente, em busca subconsciente de uma certa ideia de beleza idílica.
Tibério deveria ser ouvido nesta história. O que sabemos - e teremos que nos contentar com a mediação dos cronistas - é que o cruel imperador se enamorou um dia da ilha. A luz transparente e embriagada de tanto azul, a vegetação exuberante que mistura inesperadamente espécies mediterrânicas e tropicais, as suaves brisas marítimas que sopram como toadas de sereias, o murmúrio das vagas que se desfazem languidamente ao encontro das falésias, os cumes elevados onde se alcantilam varandas naturais sobre o Mar Tirreno e os golfos de Sorrento e de Nápoles, com a costa amalfitana a sorrir ao fundo, eis o cenário que adoçou (relativamente...) a pedra do coração imperial.
Augusto deu com ilha por acaso, quando regressava de uma campanha, em 29 a. C., e logo a anexou ao Império. Mas foi Tibério, a cuja desumanidade as crónicas de Tácito e de Suetónio não deram tréguas, que mais se deixou tocar pelos encantos de Capri, nela mandando construir doze magníficas villas e inaugurando uma longa tradição de vilegiaturas de luxo na antiga colónia grega. O déspota acabaria por quase fazer de Capri a capital do império, ali instalando o centro de governação de um imenso território. Os seus últimos anos de vida, aliás, foram passados na ilha: terá Tibério procurado em Capri bálsamo para um remorso pelas intermináveis crueldades que marcaram o seu consulado?
CAPRI E ANACAPRI, DISTINTAS FACES DA MESMA ILHA
Capri e Anacapri: as duas povoações da ilha parecem ser outra dimensão dos infinitos paradoxos que enformam a essência da ilha. A primeira é símbolo de um cosmopolitismo ímpar, de uma vertigem que durante o dia quase atinge o insuportável, com milhares de turistas desembarcando no Porto de Marina Grande para a visita breve de um dia à ilha. Mas noites de Capri são o perfeito oposto e o antídoto: deambular por ruelas periféricas como a Via Traghara, tendo por única música as sonatas de noctívagas cigarras e o rumor côncavo do mar, onde mal se adivinham as sombras dos emblemáticos faraglioni, é uma experiência que mais parece uma súbita viagem no tempo até ao regaço de um éden perdido.
Anacapri é quase o anagrama urbano de Capri; situada no lado ocidental da ilha, a poucos minutos de Capri, é (já foi mais) uma cidadezinha bem mais reservada do aluvião turístico que diariamente desembarca na ilha. Jardins luxuriantes rodeiam terraços luminosos de cal e de sol, casas mediterrânicas sucedem-se ao longo de plácidas ruelas imersas aqui e ali numa sombra meiga, o toque rural das hortas e das vinhas prossegue, enfim, uma convivência amigável e secular com as velhas villas romanas que os patrícios da Cidade Eterna aí edificaram.
Não muito longe da Via Orlandi, a meio caminho dos Banhos de Tibério, ergue-se a magnífica Villa San Michelle, antiga residência do médico e humanista sueco Axel Munthe. Henry James, numa mais do que provável ambígua expressão, descreveu-a como “one of the most fantastic beauty, poetry and inutility that I have ever seen clustered together”.
Não menos singulares são os caprichos naturais de que a ilha é invulgarmente pródiga: o Salto de Tibério, uma escarpa a pique sobre o mar, abismo providencial de onde o imperador fazia precipitar inimigos e caídos em desgraça, o Arco Naturale, uma bizarra formação rochosa em forma de arco, ou a Grotta Azzurra, famosa gruta marinha cuja água se tinge, por acção de uma extraordinária e feliz refracção da luz, de um fantástico azul, como se uma fortíssima iluminação de néon irrompesse do fundo do mar.
Apesar das contingências vertiginosas, cada vez mais imprevisíveis, de um mundo em permanente mutação e cada vez mais pequeno - com as óbvias consequências em termos de volubilidade das modas turísticas -, Capri está longe ter esgotado o seu feitiço ou de se ver ultrapassada na sua aura de sofisticado paraíso de lazer. Os anos 50 e 60 foram tempos de glória; sobreveio depois alguma discrição, apenas isso.
Tal com nos tempos em que a ilha era lugar de vilegiatura dos senhores de um dos maiores impérios que o mundo conheceu, as cigarras ali continuam, sem qualquer parcimónia, a perfumar a noite mediterrânica com os seus orgíacos cantos.
TRILHOS E ARQUITECTURAS
Quem espere - ou receie - encontrar em Capri uma estância turística de luxo profanada pelo turismo de massas não andará longe da verdade. Mas este não é, felizmente, o único retrato possível - nem o mais justo, porventura - de Capri.
Mesmo o viajante mais avisado - ou com a bagagem a transbordar de reservas - não deixará de colher algumas surpresas; ainda que de pormenor, podem representar para o retrato de Capri o mesmo que as peças de um puzzle. Num recanto do Jardim de Augusto encontramos, por exemplo, uma homenagem da comuna de Capri a Lenine, um dos muitos personagens que passaram pela ilha. Não é mais do que um austero busto do célebre líder revolucionário acompanhado de uma dedicatória solene; a dois passos, sobre um pinheiro, uma inscrição cautelosa lavrada em letra vermelha: "pericolo de incendio"...
Toda a ilha convida a longas caminhadas (há uma rede de óptimos trilhos), a melhor forma de descobrir não apenas os cenários naturais de timbre mediterrânico como também notáveis realizações arquitectónicas, desde as villas de Tibério - nomeadamente a luminosa Villa Jovis, junto ao Monte Tibério - até à casa de Curzio Malaparte, desenhada pelo arquitecto Adalberto Libera. Cravada sobre um pequeno promontório rochoso, foi cenário, em 1963, da rodagem de «O Desprezo», de Godard, filme adaptado do romance homónimo de Moravia, cuja acção decorre parcialmente em Capri.
Outra preciosidade arquitectónica é o Hotel Punta Tragara, uma antiga villa construída segundo traço de Le Corbusier. No final da II Guerra Mundial ali se realizou uma cimeira entre os poderes vencedores, Eisenhower e Churchill. De visita absolutamente imprescindível é a Villa San Michele, em Anacapri. A villa está situada sobre uma colina vizinha dos Banhos de Tibério, detendo um excelente panorama de Capri, da península de Sorrento, das ilhas de Ischia e Procida e de todo o Golfo de Nápoles, com o vulto sombrio do Vesúvio ao fundo. A Villa San Michele, hoje convertida por vontade de Axel Munthe numa fundação promotora de relações culturais entre a Suécia e a Itália, foi edificada sobre as ruínas de uma velha vila imperial romana e essa herança é uma das marcas mais vísiveis na concepção da casa, que alberga também esplêndido mobiliário renascentista e uma colecção de esculturas gregas e romanas.
Capri é uma ilha bizarra. A sua beleza serena, dócil e suscetível de despertar sentimentos contraditórios, parece assumir a condição de presente envenenado. Tal como sucede com certos seres a quem a Natureza concedeu determinados dons e que não podem a fugir a um destino que o tempo se encarregará de modelar astuciosamente, também Capri floresceu às mãos de um desígnio nascido desde tempos primitivos.
Capri é bela; dir-se-á que padece de uma beleza que convida a uma postura meramente contemplativa; e, todavia, ninguém arriscará a sentença de que estamos perante uma beleza inútil ou estéril. Mais: apesar das reviravoltas da História, Capri continua bela e constante, dois adjectivos que se dão, aparentemente, como o azeite e água.
A fortuna, como escrevia Simónides, poeta grego do séc. V a.C., pode mudar “rápida como o volver de asas de uma mosca”; mas não para Capri, uma ilha que pelo menos desde os idos remotos do Império Romano continua a ser destino de milhares e milhares de viajantes, cada um deles atraído pelos mais diversos motivos, mas todos, provavelmente, em busca subconsciente de uma certa ideia de beleza idílica.
Tibério deveria ser ouvido nesta história. O que sabemos - e teremos que nos contentar com a mediação dos cronistas - é que o cruel imperador se enamorou um dia da ilha. A luz transparente e embriagada de tanto azul, a vegetação exuberante que mistura inesperadamente espécies mediterrânicas e tropicais, as suaves brisas marítimas que sopram como toadas de sereias, o murmúrio das vagas que se desfazem languidamente ao encontro das falésias, os cumes elevados onde se alcantilam varandas naturais sobre o Mar Tirreno e os golfos de Sorrento e de Nápoles, com a costa amalfitana a sorrir ao fundo, eis o cenário que adoçou (relativamente...) a pedra do coração imperial.
Augusto deu com ilha por acaso, quando regressava de uma campanha, em 29 a. C., e logo a anexou ao Império. Mas foi Tibério, a cuja desumanidade as crónicas de Tácito e de Suetónio não deram tréguas, que mais se deixou tocar pelos encantos de Capri, nela mandando construir doze magníficas villas e inaugurando uma longa tradição de vilegiaturas de luxo na antiga colónia grega. O déspota acabaria por quase fazer de Capri a capital do império, ali instalando o centro de governação de um imenso território. Os seus últimos anos de vida, aliás, foram passados na ilha: terá Tibério procurado em Capri bálsamo para um remorso pelas intermináveis crueldades que marcaram o seu consulado?
CAPRI E ANACAPRI, DISTINTAS FACES DA MESMA ILHA
Capri e Anacapri: as duas povoações da ilha parecem ser outra dimensão dos infinitos paradoxos que enformam a essência da ilha. A primeira é símbolo de um cosmopolitismo ímpar, de uma vertigem que durante o dia quase atinge o insuportável, com milhares de turistas desembarcando no Porto de Marina Grande para a visita breve de um dia à ilha. Mas noites de Capri são o perfeito oposto e o antídoto: deambular por ruelas periféricas como a Via Traghara, tendo por única música as sonatas de noctívagas cigarras e o rumor côncavo do mar, onde mal se adivinham as sombras dos emblemáticos faraglioni, é uma experiência que mais parece uma súbita viagem no tempo até ao regaço de um éden perdido.
Anacapri é quase o anagrama urbano de Capri; situada no lado ocidental da ilha, a poucos minutos de Capri, é (já foi mais) uma cidadezinha bem mais reservada do aluvião turístico que diariamente desembarca na ilha. Jardins luxuriantes rodeiam terraços luminosos de cal e de sol, casas mediterrânicas sucedem-se ao longo de plácidas ruelas imersas aqui e ali numa sombra meiga, o toque rural das hortas e das vinhas prossegue, enfim, uma convivência amigável e secular com as velhas villas romanas que os patrícios da Cidade Eterna aí edificaram.
Não muito longe da Via Orlandi, a meio caminho dos Banhos de Tibério, ergue-se a magnífica Villa San Michelle, antiga residência do médico e humanista sueco Axel Munthe. Henry James, numa mais do que provável ambígua expressão, descreveu-a como “one of the most fantastic beauty, poetry and inutility that I have ever seen clustered together”.
Não menos singulares são os caprichos naturais de que a ilha é invulgarmente pródiga: o Salto de Tibério, uma escarpa a pique sobre o mar, abismo providencial de onde o imperador fazia precipitar inimigos e caídos em desgraça, o Arco Naturale, uma bizarra formação rochosa em forma de arco, ou a Grotta Azzurra, famosa gruta marinha cuja água se tinge, por acção de uma extraordinária e feliz refracção da luz, de um fantástico azul, como se uma fortíssima iluminação de néon irrompesse do fundo do mar.
Apesar das contingências vertiginosas, cada vez mais imprevisíveis, de um mundo em permanente mutação e cada vez mais pequeno - com as óbvias consequências em termos de volubilidade das modas turísticas -, Capri está longe ter esgotado o seu feitiço ou de se ver ultrapassada na sua aura de sofisticado paraíso de lazer. Os anos 50 e 60 foram tempos de glória; sobreveio depois alguma discrição, apenas isso.
Tal com nos tempos em que a ilha era lugar de vilegiatura dos senhores de um dos maiores impérios que o mundo conheceu, as cigarras ali continuam, sem qualquer parcimónia, a perfumar a noite mediterrânica com os seus orgíacos cantos.
TRILHOS E ARQUITECTURAS
Quem espere - ou receie - encontrar em Capri uma estância turística de luxo profanada pelo turismo de massas não andará longe da verdade. Mas este não é, felizmente, o único retrato possível - nem o mais justo, porventura - de Capri.
Mesmo o viajante mais avisado - ou com a bagagem a transbordar de reservas - não deixará de colher algumas surpresas; ainda que de pormenor, podem representar para o retrato de Capri o mesmo que as peças de um puzzle. Num recanto do Jardim de Augusto encontramos, por exemplo, uma homenagem da comuna de Capri a Lenine, um dos muitos personagens que passaram pela ilha. Não é mais do que um austero busto do célebre líder revolucionário acompanhado de uma dedicatória solene; a dois passos, sobre um pinheiro, uma inscrição cautelosa lavrada em letra vermelha: "pericolo de incendio"...
Toda a ilha convida a longas caminhadas (há uma rede de óptimos trilhos), a melhor forma de descobrir não apenas os cenários naturais de timbre mediterrânico como também notáveis realizações arquitectónicas, desde as villas de Tibério - nomeadamente a luminosa Villa Jovis, junto ao Monte Tibério - até à casa de Curzio Malaparte, desenhada pelo arquitecto Adalberto Libera. Cravada sobre um pequeno promontório rochoso, foi cenário, em 1963, da rodagem de «O Desprezo», de Godard, filme adaptado do romance homónimo de Moravia, cuja acção decorre parcialmente em Capri.
Outra preciosidade arquitectónica é o Hotel Punta Tragara, uma antiga villa construída segundo traço de Le Corbusier. No final da II Guerra Mundial ali se realizou uma cimeira entre os poderes vencedores, Eisenhower e Churchill. De visita absolutamente imprescindível é a Villa San Michele, em Anacapri. A villa está situada sobre uma colina vizinha dos Banhos de Tibério, detendo um excelente panorama de Capri, da península de Sorrento, das ilhas de Ischia e Procida e de todo o Golfo de Nápoles, com o vulto sombrio do Vesúvio ao fundo. A Villa San Michele, hoje convertida por vontade de Axel Munthe numa fundação promotora de relações culturais entre a Suécia e a Itália, foi edificada sobre as ruínas de uma velha vila imperial romana e essa herança é uma das marcas mais vísiveis na concepção da casa, que alberga também esplêndido mobiliário renascentista e uma colecção de esculturas gregas e romanas.
Quem vai para Costa Amalfitana não pode deixar de conhecer a Ilha de Capri.
A cidade de Capri no topo da ilha consegue concentrar o que há de melhor para os visitantes.
A dica é: se for entre junho e setembro reserve com muita antecedência e se prepare para pagar por estar entre os lugares mais badalados da Europa.
Outra dica de Capri é caminhar pelas trilhas da ilha que tem pouco mais de 6 kms desvendando a belas paisagens. Em um dos extremos da ilha fica mais fácil fotografar a combinação das paredes rochosas com a água verde do mar. Uma das mais bonitas é o "Arco Naturale".
Se for no inverno, muitos restaurantes e hotéis estão fechados. Então a dica é passar o dia para fazer as trilhas e conhecer a Piazza Umberto I e depois dormir em Sorrento ou Nápoles. Nessa época o Funiculare que faz o transporte da marina até Capri está fechado. Para substitui-lo, pequenos ônibus fazem o trajeto a cada meia hora.
- Na volta da praia, tomar um sorvete de gianduia em qualquer sorveteria da ilha;
- Comprar sandálias caprese na Canfora ou qualquer coisa na Pucci para entrar no clima do dress code local.
A cidade de Capri no topo da ilha consegue concentrar o que há de melhor para os visitantes.
A dica é: se for entre junho e setembro reserve com muita antecedência e se prepare para pagar por estar entre os lugares mais badalados da Europa.
Outra dica de Capri é caminhar pelas trilhas da ilha que tem pouco mais de 6 kms desvendando a belas paisagens. Em um dos extremos da ilha fica mais fácil fotografar a combinação das paredes rochosas com a água verde do mar. Uma das mais bonitas é o "Arco Naturale".
Se for no inverno, muitos restaurantes e hotéis estão fechados. Então a dica é passar o dia para fazer as trilhas e conhecer a Piazza Umberto I e depois dormir em Sorrento ou Nápoles. Nessa época o Funiculare que faz o transporte da marina até Capri está fechado. Para substitui-lo, pequenos ônibus fazem o trajeto a cada meia hora.
- Na volta da praia, tomar um sorvete de gianduia em qualquer sorveteria da ilha;
- Comprar sandálias caprese na Canfora ou qualquer coisa na Pucci para entrar no clima do dress code local.
Costa Amalfitana
COSTA DE AMALFI, UM GOSTO A LIMÃO
“Um pé na barca outro na vinha”. Uma vida assim, de aventura e de trabalho, inventaram-na os amalfitanos, encravados entre o mar desafiante e a terra agreste. Ainda estava o primeiro milénio por findar e já havia nascido a primeira república marítima italiana, território de agricultores e de marinheiros de dura têmpera que se apressaram a lançar as quilhas dos barcos em direcção ao Oriente. As cúpulas de majólica dos duomos, assomando entre os terraços do casario, são perfeitos testemunhos do orientalismo da arquitectura e da arte amalfitanas.
O esplêndido maciço montanhoso que separa o Golfo de Nápoles do Golfo de Sorrento, quase impenetrável de tão profusamente acidentado, é bem mais do que um simples cenário a dar ensejo a um leque de paisagens de bilhete-postal - é literalmente a matriz natural da cultura amalfitana. O clima doce e a cálida tranquilidade do mar tudo devem ao impressionante colosso de pedra que é a Península de Sorrento. O caótico relevo apenas se suaviza, em breves colinas verdejantes, já perto de Sorrento.
A natureza áspera e bravia da costa, minuciosamente recortada, a desfiar fiordes, grutas e altíssimas falésias em mergulho constante sobre o Mar Tirreno, agraciou os amalfitanos com uma inexpugnável defesa contra os ataques de piratas e outros inimigos. Da benção do clima, dádiva excepcional, lograram tirar o melhor dos partidos, enxertando sabiamente na terra abrupta férteis terraços onde ainda hoje a luz e o calor pacientemente amadurecem esplêndidos frutos - limões, sobretudo, essas metamorfoses do sol com que a gente local inventa singulares licores, com algumas variantes bem imaginativas, como o limoncello, talvez o mais emblemático sabor da Costa de Amalfi.
(RE)CANTOS DE SEREIAS
A variedade paisagística, capaz de desafiar permanentemente a imaginação - e os sentidos - é certamente a quintessência da costa de Amalfi. O milagre será encontrar aí um lugar esquivo ao adjectivo panorâmico.
Quase no extremo do Golfo de Salerno, nas imediações de Sorrento, a pequena povoação de Sant'Agata sui due Golfi faz jus ao nome: das verdes colinas que a rodeiam o olhar alcança, para norte, o Golfo de Nápoles desenhado aos pés do Vesúvio, e, para leste, o contorno irrequieto e imprevisível da orla amalfitana. Do antigo ermitério das Carmelitas, o panorama revela-se perfeitamente circular. Para quem fizer de Nápoles - ou da simpática e bem mais tranquila Sorrento - o ponto de partida para uma visita à península e ao paraíso amalfitano, o mirante privilegiado de Sant'Agata sui due Golfi é uma etapa indispensável. Aí nos rendemos a uma das mais belas paisagens italianas, com a ilha de Capri sorrindo entre azul esmeraldino do Mar Tirreno.
“Um pé na barca outro na vinha”. Uma vida assim, de aventura e de trabalho, inventaram-na os amalfitanos, encravados entre o mar desafiante e a terra agreste. Ainda estava o primeiro milénio por findar e já havia nascido a primeira república marítima italiana, território de agricultores e de marinheiros de dura têmpera que se apressaram a lançar as quilhas dos barcos em direcção ao Oriente. As cúpulas de majólica dos duomos, assomando entre os terraços do casario, são perfeitos testemunhos do orientalismo da arquitectura e da arte amalfitanas.
O esplêndido maciço montanhoso que separa o Golfo de Nápoles do Golfo de Sorrento, quase impenetrável de tão profusamente acidentado, é bem mais do que um simples cenário a dar ensejo a um leque de paisagens de bilhete-postal - é literalmente a matriz natural da cultura amalfitana. O clima doce e a cálida tranquilidade do mar tudo devem ao impressionante colosso de pedra que é a Península de Sorrento. O caótico relevo apenas se suaviza, em breves colinas verdejantes, já perto de Sorrento.
A natureza áspera e bravia da costa, minuciosamente recortada, a desfiar fiordes, grutas e altíssimas falésias em mergulho constante sobre o Mar Tirreno, agraciou os amalfitanos com uma inexpugnável defesa contra os ataques de piratas e outros inimigos. Da benção do clima, dádiva excepcional, lograram tirar o melhor dos partidos, enxertando sabiamente na terra abrupta férteis terraços onde ainda hoje a luz e o calor pacientemente amadurecem esplêndidos frutos - limões, sobretudo, essas metamorfoses do sol com que a gente local inventa singulares licores, com algumas variantes bem imaginativas, como o limoncello, talvez o mais emblemático sabor da Costa de Amalfi.
(RE)CANTOS DE SEREIAS
A variedade paisagística, capaz de desafiar permanentemente a imaginação - e os sentidos - é certamente a quintessência da costa de Amalfi. O milagre será encontrar aí um lugar esquivo ao adjectivo panorâmico.
Quase no extremo do Golfo de Salerno, nas imediações de Sorrento, a pequena povoação de Sant'Agata sui due Golfi faz jus ao nome: das verdes colinas que a rodeiam o olhar alcança, para norte, o Golfo de Nápoles desenhado aos pés do Vesúvio, e, para leste, o contorno irrequieto e imprevisível da orla amalfitana. Do antigo ermitério das Carmelitas, o panorama revela-se perfeitamente circular. Para quem fizer de Nápoles - ou da simpática e bem mais tranquila Sorrento - o ponto de partida para uma visita à península e ao paraíso amalfitano, o mirante privilegiado de Sant'Agata sui due Golfi é uma etapa indispensável. Aí nos rendemos a uma das mais belas paisagens italianas, com a ilha de Capri sorrindo entre azul esmeraldino do Mar Tirreno.
As possibilidades de descoberta de praias recônditas, de grutas e de mirantes debruçados sobre um mar sempre transparente e convidativo, são quase infinitas. Alugar uma scooter ou um barco é uma forma de poder explorar melhor a costa.
As povoações amalfitanas podem apresentar-se, consoante a época e não só, como estâncias balneares altamente concorridas, vaidosas e cosmopolitas, ou como simples e tranquilas aldeias de pescadores. Amalfi e Positano enquadram-se, naturalmente, no primeiro caso, enquanto Praiano e Atrani se revelam bem mais sossegadas. Uma das maiores praias de costa, também bastante frequentada, é Marina del Cantone, a pouca distância de Sant'Agata sui due Golfi e debruçada sobre o Golfo de Positano. A toada doce do mar, polvilhado de barquinhos adormecidos, traz-nos à memória a verdade imponderável que habita as lendas: aqui teria sido um dia a morada das sereias que tentaram Ulisses...
TRILHOS E FIORDES NA COSTA DE AMALFI
A estradinha estreita e sinuosa que contorna a costa conspira com as falésias para um incessante desfiar de sustos e surpresas. A condução requer particular cuidado, ao mesmo tempo que uma sucessão de caprichos naturais nos pede a maior atenção. Há miradouros dispersos por todo o percurso, alguns em lugares absolutamente ímpares como o Belvedere del Infinito, famoso terraço da Villa Rufolo, em Ravello.
Mas até lá, o viajante não resistirá a deixar-se perder nos pequenos desvios com que lhe hão-de revelar os segredos menos conhecidos da Costa de Amalfi, entre os quais alguns trilhos imersos em natureza bravia: para o interior, aos pés do Monte Sant' Angelo, o Arco Naturale, uma bizarra formação rochosa, ou, já nas terras altas de Agérola, abundantes bosques de castanheiros. Mas é ao longo da orla que o proverbial feitiço da terra amalfitana melhor se afirma, com a sucessão de fiordes e vales fundos que terminam em pequenas e acolhedoras praias como a de Vallone di Praia. O Fiorde de Furore, perto de Marina di Praia, é o mais impressionante - um trilho conduz os caminhantes ao longo de duas horas até à aldeia de Furore, não muito longe da região planáltica de Agérola. As terras de Furore, como tantos outros pequenos recantos italianos, cultiva ainda outro orgulho, o de produzir um bem perfumado vinho local, imodestamente denominado Gran Furore Divina Costiera. O néctar vale a imodéstia e não ficaria mal ao lado de outros seus famosos vizinhos como o Lacrima Christi, das encostas do Vesúvio, ou os brancos de Capri e de Ischia.
O mergulho submarino é uma actividade muito popular no Golfo de Salerno, mas os viajantes de vocação menos desportista podem encontrar uma alternativa menos radical, a de uma incursão por barco a algumas das belas grutas da costa. A mais famosa e deslumbrante é a Grotta dello Smeraldo, junto ao cabo de Conca dei Marini. É ampla, tem cerca de 24 metros de altura em relação ao nível do mar, e a refracção da luz produz um efeito interessante, criando uma atmosfera algo irreal, com variantes de tons verde-esmeralda.
ORIENTALISMOS E INSPIRAÇÕES LITERÁRIAS
A arquitectura popular das povoações lembra frequentemente soluções orientais, embora o clima e a configuração geográfica da península constituam também, obviamente, um factor justificante para a proliferação de terraços. O longo e histórico relacionamento com Constantinopla originou, no domínio da arquitectura religiosa, a assimilação de fortes influências, presentes não apenas em quase todas as igrejas como também em inúmeros palácios. Ravello, de cuja beleza Boccacio lavrou testemunho no Decameron, é preciosa memória desse tempo, conservando ao mesmo tempo inúmeros pormenores que revelam a influência árabe.
Por toda a parte, de Positano a Vietri sul Mare, as casas de talha oriental que rodeiam as cúpulas de cerâmica das igrejas teimam em aglomerar-se umas sobre as outras, incrustadas quase sempre sobre pétreas verticalidades. Esse efeito de cascata é identificável em quase todas as povoações da costa amalfitana, e uma deriva pelo interior desses pequenos núcleos urbanos acaba por nos guiar através de um labirinto de sinuosas escadas e escadinhas que descem vertiginosamente sobre a orla, desaguando tantas vezes em miniaturais praias de areia negra. Para o interior, onde se ergue a cadeia dos montes Lattari (o ponto mais alto, o Monte Sant' Angelo, quase alcança os 1500 metros), as poucas vias existentes torcem-se atormentadamente entre vales fundos e assustadoras ravinas, uma paisagem de cortar o fôlego.
Essa aura selvagem - a inospitalidade é só aparente - que se desprende da áspera e bruta topografia, logo adiante adoçada pela blandícia do mar, atraiu uma infinidade de viajantes a quem concedeu outros frutos, talvez os do apaziguamento interior, certamente os da inspiração artística. A bela baía de Conca dei Marini, entre Praiano e Amalfi, deve respirar em algumas das páginas de Steinbeck; em Ravello, uma espécie de ninho de águias e miradouro debruçado sobre uma das mais belas paisagens italianas, terá tido Wagner a visão dos jardins de Klingsor, sem os quais o segundo acto de «Parsifal» não seria, provavelmente, o que é; Gorki, Cocteau e Picasso ter-se-ão deixado embriagar, igualmente, pela imensa transparência azul do éter, quase um espelho do mar. E, finalmente, para insinuar uma questão que está longe de ser meramente académica, quanto terão ficado a dever D. H. Lawrence e «O Amante de Lady Chatterley» aos abismos luminosos de Ravello?
AMALFI, UMA REPÚBLICA MARÍTIMA
O mar foi a segunda pátria dos amalfitanos. A primeira república marítima a afirmar-se na península italiana, antes ainda de Veneza, Génova e Pisa, exerceu um seguro domínio das rotas comerciais com o Mediterrâneo oriental, sobretudo com Constantinopla, reino com quem os amalfitanos estabeleceram também parcerias em questões bélicas, nomeadamente quando os guerreiros bizantinos ajudaram Amalfi a libertar-se do domínio lombardo.
No início do segundo milénio navegava-se no Mediterrâneo sob a regência das Tavole Amalfitane, o mais antigo código marítimo conhecido em todo o mundo. O documento, provavelmente uma versão do séc. XV ou XVI, andou perdido durante alguns séculos, reaparecendo depois em Veneza, de onde foi levado para a Biblioteca Imperial de Viena pelos Habsburgos; regessou em 1935 a Amalfi, onde está exposto na Câmara Municipal.
Nas ruas de Amalfi podem observar-se diversos painéis de cerâmica alusivos à história marítima da cidade. Num deles, perto da Porta della Marina, representando uma antiga carta do Mediterrâneo, aparece representada uma nave utilizada nesses tempos de glória; é, precisamente, uma barca semelhante que os amalfitanos fazem desfilar, entre outras embarcações, durante as suas regatas históricas anuais, compreensivelmente o grande momento das festividades populares da região. No dia grande da festa - o primeiro domingo de Junho -, cerca de uma centena de amalfitanos desfila em trajos tradicionais dos séc. XII e XIII num cortejo que percorre as ruas da cidade.
Ao mesmo tempo, no mar, evocam-se as antigas lutas pela supremacia dos mares mediterrânicos através da reconstituição de uma batalha em que participam quatro embarcações em representação de Amalfi e das repúblicas marítimas rivais de Génova, Veneza e Pisa. Durante todo o dia vão-se agitando ao largo de Amalfi as bandeiras de vivo colorido que identificam cada uma das quatro repúblicas. No final da amigável refrega o troféu que aguarda a tripulação vencedora é uma miniatura de uma barca em ouro e prata. Na regata do ano seguinte, o valioso batel voltará a estar em disputa, uma forma, festiva, das antigas repúblicas marítimas continuarem a evocar eternamente um tempo que foi não apenas de rivalidade como também, sobretudo, de independência e de liberdade.